Ok, interrompo minhas férias internáuticas (no meio de minhas férias reais) porque o assunto pede urgência. Na verdade, eu adoraria ter um blog "sério", segmentado, não para viver disso - exatamente o contrário, a ideia é ter liberdade e tempo o suficiente para fazer o que bem entender -, mas sinto que seria legal tocar algum projeto com uma cara mais, digamos, profissional.
Enfim.
Se meu blog sério fosse sobre crítica gastronômica, eu teria arrumado um forte inimigo. Um inimigo número 1, eu diria.
Passando breve temporada em Presidente Prudente, cidade abençoada onde vive minha família, fui à pizzaria Número 1 ontem, com minha digníssima, cunhado, irmã, sobrinho e mãe. Já conhecia o lugar, sabia que a pizza era mais ou menos (digna, mas nada demais), mas a decisão acabou se mostrando um grande erro. O local estava abarrotado de gente. Fila quilométrica para pegar mesa, pessoas saindo pelo ladrão. Até que não demoramos tanto para conseguir um lugar, mas estava bom demais para ser verdade.
Meu cunhado precisou pedir uma cadeirinha especial para meu sobrinho (ele tem dois anos) para três garçons diferentes. Demorou uns cinco minutos até podermos fazer o pedido, que era bem simples: refrigerantes, cervejas e cinco rodízios. O primeiro pedaço demorou, sem dúvida, mais que cinco minutos para chegar. E se você pensa que isso é pouco tempo, e que estou reclamando de barriga cheia, me perdoe, mas você nunca foi a um rodízio de pizza decente.
Entre um garçom e outro, trancorria-se uma eternidade. A ponto de querermos ir embora. Como se isso ja não desabonasse o atendimento, um dos refrigerantes veio no copo sem gelo (apesar da ênfase no pedido) e um dos garçons derrubou um pedaço da pizza de alho na mesa quando foi servi-lo (foi alho frito para tudo quanto é lado - e ninguém sequer se deu o trabalho de limpar!).
Vale lembrar que o valor do rodízio é de R$ 17,50. Um absurdo pelo serviço porco, pelo local (que não oferece nada além de um galpão lotado de mesas, sem decoração especial ou algo que o valha) e pelas pizzas em si (contei cinco pequenas rodelas de palmito no pedaço da pizza desse sabor que me foi servido). Até na Cascata, em Ribeirão, com rodízio a R$ 9,90, arrisco dizer que tudo é bem melhor.
Na hora de pagar, pelo menos, a única coisa boa: o cara não teve a cara de pau de incluir os 10% da taxa de serviço. O que mostra que eles são ruins, mas ao menos têm autocrítica.
(Agora vem o momento "análise sócio-política regional" incitado pelo puro e simples sentimento do blogueiro de que este espaço é dele e ninguém pode impedi-lo de dizer o que ele quer)
O triste de tudo isso é que essa tal Número 1 é, de fato, uma das únicas (ao lado de umas outras, sei lá, três) opções em Prudente para se comer uma pizza. O lugar é assim e vai continuar assim. Meu cunhado mesmo disse "ah, é sábado, a gente veio tarde, lota mesmo, os caras não aguentam". Não aguentam? Ora! Que contratem mais gente! Ou limitem o número de vagas para os clientes - ah, é claro, isso os forçaria a buscar uma opção melhor, ou quem sabe, faria com que um deles mesmo abrisse sua própria pizzaria na cidade, não é mesmo?
Prudente é a capital de uma região pobre, esquecida e abandonada, pelo Estado e pelos seus próprios governantes. A cidade não se desenvolve por uma série de (des)interesses, mas para o pessoal de Sadovalina, Teodoro Sampaio, Pirapozinho, Presidente Bernardes, Alfredo Marcondes e afins, comer uma pizza na Número 1 no sábado à noite equivale ao "teatro (cinema) - jantar (barzinho)" do paulistano suburbano. É o máximo visitar a metrópole.
Posso estar sendo irritantemente pedante? Posso. Mas sei que tenho um fundo de razão. Muita coisa aqui poderia ser melhor, mas não é simplesmente porque não precisa ser. Para a maioria das pessoas, está bom assim.
Como diz um trecho do hino da cidade, "qualquer raça do mundo/ que nela aportar /o labor e o amor profundo/ há de encontrar".
Labor e amor profundo sim, já bom atendimento em serviços vai ser difícil...
10 de janeiro de 2010
Como?
Na home da Folha Online em 10/01/2010:
Trinta e nove, 250, 11...
Como diria uma professora da faculdade, "precisão, percebe?"
Como diria uma professora da faculdade, "precisão, percebe?"
22 de novembro de 2009
Andy e seus amigos
(ATENÇÃO: este texto contém spoilers. Mas é sobre um filme produzido em 1994, então acho que ninguém vai se importar)
Ok, ok: eu choro em filmes. Choro mesmo. Pra certas coisas, sou praticamente uma menina. Uma vez, chorei com uma matéria do Esporte Espetacular em que o jogador Rui (um carequinha apelidado de cabeção que jogava até pouco tempo no Fluminense - não vi mais ele) reencontrou seu pai. Pois é.
O primeiro filme em que chorei foi E.T. O que, na época, foi uma situação que se desenhou como um grande paradoxo para mim, já que eu morria (morria? a quem estou querendo enganar? eu ainda morro...) de medo de ETs. Depois, ainda criança, chorei com Meu Primeiro Amor, e eu tinha vergonha dos adultos que estavam por perto, então segurava as lágrimas o máximo que podia e depois, quando ia dormir, pensava de novo no filme e chorava de verdade.
Já crescido, um belo dia fui assistir Um Sonho de Liberdade em uma madrugada na Globo (acho que era Intercine). Acho que um cunhado meu havia indicado o filme. Nem é preciso dizer que chorei em bicas. Ao mesmo tempo em que achei o filme, naquele momento, um dos melhores que já tinha visto na minha vida. E é fuckin' fodidamente fantástico mesmo.
Como minha situação financeira na época era um lixo, e a própria situação tecnológica do mundo não era lá essas coisas (anos 90, gente!) , eu gravei o filme em VHS e assistia sempre. Uma vez, minha irmã gravou a novela por cima da cena final, em que o Red encontra o Andy na praia (ops, spoiler, foi mal) e eu fiquei deveras puto. O engraçado é que eu só comprei o DVD do filme há uns dois anos, em uma dessas promoções das lojas Americanas. Mas prossigamos.
O que quero dizer é que, mesmo tendo visto Um Sonho de Liberdade umas 30 vezes (esse deve mesmo ser o número correto, não é hipérbole), eu ainda choro. Mas ontem, ao assisti-lo mais uma vez (a primeira com home theater e TV LCD - tá pensando o quê?), percebi que é sempre uma cena diferente que me desperta o lado mocinha desamparada. Na primeira vez, chorei quase da metade toda do filme para o fim, desde quando o Brooks se mata. Com o auge, é claro, na expectativa gerada pelo possível suicídio do Andy. E sempre com os olhos marejadíssimos na épica cena da chuva (que é realmente uma cena muito bonita, cinematograficamente falando - tem contexto, trilha perfeita, luz, interpretação... congruência total de fatores).
Dessa vez, o que me emocionou foi a parte pós-fuga do Andy, em que seus amigos estão na mesa comendo e se lembrando de suas façanhas na prisão. Quando o Red diz que está feliz por ele, mas que sente sua falta. O que isso me diz? Que eu sinto falta dos meus amigos? Que eu deveria tentar passar mais tempo com eles? Sei lá. Aí acho que já é muita viagem. Por ora, espero apenas uma boa oportunidade para que eu possa tomar meu banho de chuva...
PS: Aconteceu o que eu temia. Vendo o filme ontem, comecei a notar uma porção de "falhas". Frases muito melosas, cenas que não se encaixam (como diabos ele abre um buraco em um cano de ferro com uma pedra com espaço suficiente para ele mesmo passar em tão pouco tempo, meu Deus?)... É mais um ícone da minha juventude que aos poucos se esvai e perde sua majestade para comigo mesmo. Ficar adulto é uma bosta. Mas isso é assunto para outro post - ou não.
Ok, ok: eu choro em filmes. Choro mesmo. Pra certas coisas, sou praticamente uma menina. Uma vez, chorei com uma matéria do Esporte Espetacular em que o jogador Rui (um carequinha apelidado de cabeção que jogava até pouco tempo no Fluminense - não vi mais ele) reencontrou seu pai. Pois é.
O primeiro filme em que chorei foi E.T. O que, na época, foi uma situação que se desenhou como um grande paradoxo para mim, já que eu morria (morria? a quem estou querendo enganar? eu ainda morro...) de medo de ETs. Depois, ainda criança, chorei com Meu Primeiro Amor, e eu tinha vergonha dos adultos que estavam por perto, então segurava as lágrimas o máximo que podia e depois, quando ia dormir, pensava de novo no filme e chorava de verdade.
Já crescido, um belo dia fui assistir Um Sonho de Liberdade em uma madrugada na Globo (acho que era Intercine). Acho que um cunhado meu havia indicado o filme. Nem é preciso dizer que chorei em bicas. Ao mesmo tempo em que achei o filme, naquele momento, um dos melhores que já tinha visto na minha vida. E é fuckin' fodidamente fantástico mesmo.
Como minha situação financeira na época era um lixo, e a própria situação tecnológica do mundo não era lá essas coisas (anos 90, gente!) , eu gravei o filme em VHS e assistia sempre. Uma vez, minha irmã gravou a novela por cima da cena final, em que o Red encontra o Andy na praia (ops, spoiler, foi mal) e eu fiquei deveras puto. O engraçado é que eu só comprei o DVD do filme há uns dois anos, em uma dessas promoções das lojas Americanas. Mas prossigamos.
O que quero dizer é que, mesmo tendo visto Um Sonho de Liberdade umas 30 vezes (esse deve mesmo ser o número correto, não é hipérbole), eu ainda choro. Mas ontem, ao assisti-lo mais uma vez (a primeira com home theater e TV LCD - tá pensando o quê?), percebi que é sempre uma cena diferente que me desperta o lado mocinha desamparada. Na primeira vez, chorei quase da metade toda do filme para o fim, desde quando o Brooks se mata. Com o auge, é claro, na expectativa gerada pelo possível suicídio do Andy. E sempre com os olhos marejadíssimos na épica cena da chuva (que é realmente uma cena muito bonita, cinematograficamente falando - tem contexto, trilha perfeita, luz, interpretação... congruência total de fatores).
Dessa vez, o que me emocionou foi a parte pós-fuga do Andy, em que seus amigos estão na mesa comendo e se lembrando de suas façanhas na prisão. Quando o Red diz que está feliz por ele, mas que sente sua falta. O que isso me diz? Que eu sinto falta dos meus amigos? Que eu deveria tentar passar mais tempo com eles? Sei lá. Aí acho que já é muita viagem. Por ora, espero apenas uma boa oportunidade para que eu possa tomar meu banho de chuva...
PS: Aconteceu o que eu temia. Vendo o filme ontem, comecei a notar uma porção de "falhas". Frases muito melosas, cenas que não se encaixam (como diabos ele abre um buraco em um cano de ferro com uma pedra com espaço suficiente para ele mesmo passar em tão pouco tempo, meu Deus?)... É mais um ícone da minha juventude que aos poucos se esvai e perde sua majestade para comigo mesmo. Ficar adulto é uma bosta. Mas isso é assunto para outro post - ou não.
4 de novembro de 2009
O menino de Peshawar
Enquanto jornalista, sei que este é um grave defeito meu, mas a verdade é que eu não costumo dar muita bola para fotografias. Deve ter começado na faculdade: minha professora era péssima, o equipamento era sucata e meu interesse pelo assunto, que já era baixo, tornou-se nulo. E, para ser sincero, eu sempre tive um pouco daquele coisa de "jornalista de verdade apura informação, faz texto, não aperta botão". Para mim, em suma, foto sempre foi aquela ilustração que preenche o buraco na página para divertir os olhos do leitor. Pronto-falei. Mas é claro que com o tempo eu mudei essa visão, e hoje realmente sei que uma foto pode dizer o que nem mil páginas de jornal (e não palavras) poderiam descrever.
Bom, o mundo tem uma porção de coisas que eu não entendo, e uma delas é a bagunça toda dessa região chamada Oriente Médio (tomei a liberdade de incluir Afeganistão e Paquistão aí no balaio - nem sei se formalmente eles são considerados Oriente Médio, mas como brigam pacas e são em sua maioria adoradores de Alá, para mim está valendo).
Como leitor, e mais recentemente editor, eu sempre achei completamente banais qualquer informação como "número de mortos em atentado chega a X" ou "carro-bomba explode e mata Y no casa-do-caralho-quistão". Isso, é claro, ocorre em boa parte por culpa das agências internacionais, que no mais das vezes não fazem notícias, e sim atualização do placar de mortos do dia nos locais de conflito. Afinal, explicar tudo certinho dá trabalho, e uma boa quantidade de cadáveres na capa do jornal sempre chama mais a atenção. Contextualização de cu é rola.
O mesmo com as fotos. São sempre ruínas, ferragens de veículos, poeira, um pessoal queimado de sol e barbudo com umas túnicas esquisitas gritando... É tudo horrível, mas vamos admitir, gente: caiu tudo em uma terrível normalidade. Terrível mesmo. Para o leitor/espectador ocidental, que desaprendeu a refletir sobre as raízes do problema; para a imprensa, que repete a mesma fórmula sempre inquestionável de cobertura e, principalmente, para os desafortunados moradores das localidades atingidas, que têm suas vidas reduzidas a estatística e, quando muito, cenário de horror para deleite dos hipócritas de plantão.
Meu pensamento era esse, até que me deparei com a foto abaixo.

Foi na semana retrasada, quando estava editando a página de Mundo do jornal. É de um atentado na cidade de Peshawar, no Paquistão, que aconteceu em um mercado frequentado essencialmente por mulheres - no caso específico deste ataque, um carro-bomba foi explodido no momento em que muitas mães tinham acabado de pegar seus filhos em uma escola próxima e passavam pelo lugar para comprar alimentos para o jantar. A rigor, é mais uma foto da desgraça no Oriente Médio.
Mas para mim a foto pegou. Pegou fundo, de verdade. Pode ser parte do processo de emboiolagem pós-casamento, mas pegou. A criança no colo do pai é uma imagem já forte por si só, mas uma série de detalhes, que fui notando com a contemplação da foto, me derrubou. O principal deles é a sandalinha do menino - coloridinho, bem abotoado, uma sandalinha de criança. Teria sido amarrado por sua mãe? Teria sido comprado por quem? E o pior: cadê o outro pé? Se perdeu com a explosão, e pensar nisso para mim foi bastante aterrorizante. Quem teria coragem de explodir uma bomba perto de uma criança que usa uma sandalinha como essa?
O pai segura seu filho consternado, como se tivesse chegado tarde demais. Eu queria estar lá para dizer a ele que não tinha como chegar mais cedo, que ele não poderia ter feito nada, que aconteceu como tinha que acontecer, que foi um acidente inevitável. As pessoas em volta olham, e o que impera em seus olhares é a expressão de respeito e tristeza, acima da curiosidade.
A legenda que veio com a imagem, da agência France Press (o nome do fotógrafo, aliás, é A. Majeed) começava dizendo "Dead child...". Eu não queria ter lido isso. Nunca desejei tanto que uma informação estivesse errada, e que essa criança estivesse, de alguma forma, viva.
Eu sei que há muitas crianças que morrem por aí, de formas até piores, e vocês podem dizer que eu não reajo com elas assim como reagi com o menino paquistanês. Pois é. Culpem essa foto, feita em algum momento do final da tarde do dia 21 de outubro de 2009 na cidade de Peshawar, no Paquistão.
Dizem que o jornalismo tem o poder de mudar o mundo. Nem que seja um pouquinho, essa foto mudou o meu.
Bom, o mundo tem uma porção de coisas que eu não entendo, e uma delas é a bagunça toda dessa região chamada Oriente Médio (tomei a liberdade de incluir Afeganistão e Paquistão aí no balaio - nem sei se formalmente eles são considerados Oriente Médio, mas como brigam pacas e são em sua maioria adoradores de Alá, para mim está valendo).
Como leitor, e mais recentemente editor, eu sempre achei completamente banais qualquer informação como "número de mortos em atentado chega a X" ou "carro-bomba explode e mata Y no casa-do-caralho-quistão". Isso, é claro, ocorre em boa parte por culpa das agências internacionais, que no mais das vezes não fazem notícias, e sim atualização do placar de mortos do dia nos locais de conflito. Afinal, explicar tudo certinho dá trabalho, e uma boa quantidade de cadáveres na capa do jornal sempre chama mais a atenção. Contextualização de cu é rola.
O mesmo com as fotos. São sempre ruínas, ferragens de veículos, poeira, um pessoal queimado de sol e barbudo com umas túnicas esquisitas gritando... É tudo horrível, mas vamos admitir, gente: caiu tudo em uma terrível normalidade. Terrível mesmo. Para o leitor/espectador ocidental, que desaprendeu a refletir sobre as raízes do problema; para a imprensa, que repete a mesma fórmula sempre inquestionável de cobertura e, principalmente, para os desafortunados moradores das localidades atingidas, que têm suas vidas reduzidas a estatística e, quando muito, cenário de horror para deleite dos hipócritas de plantão.
Meu pensamento era esse, até que me deparei com a foto abaixo.

Foi na semana retrasada, quando estava editando a página de Mundo do jornal. É de um atentado na cidade de Peshawar, no Paquistão, que aconteceu em um mercado frequentado essencialmente por mulheres - no caso específico deste ataque, um carro-bomba foi explodido no momento em que muitas mães tinham acabado de pegar seus filhos em uma escola próxima e passavam pelo lugar para comprar alimentos para o jantar. A rigor, é mais uma foto da desgraça no Oriente Médio.
Mas para mim a foto pegou. Pegou fundo, de verdade. Pode ser parte do processo de emboiolagem pós-casamento, mas pegou. A criança no colo do pai é uma imagem já forte por si só, mas uma série de detalhes, que fui notando com a contemplação da foto, me derrubou. O principal deles é a sandalinha do menino - coloridinho, bem abotoado, uma sandalinha de criança. Teria sido amarrado por sua mãe? Teria sido comprado por quem? E o pior: cadê o outro pé? Se perdeu com a explosão, e pensar nisso para mim foi bastante aterrorizante. Quem teria coragem de explodir uma bomba perto de uma criança que usa uma sandalinha como essa?
O pai segura seu filho consternado, como se tivesse chegado tarde demais. Eu queria estar lá para dizer a ele que não tinha como chegar mais cedo, que ele não poderia ter feito nada, que aconteceu como tinha que acontecer, que foi um acidente inevitável. As pessoas em volta olham, e o que impera em seus olhares é a expressão de respeito e tristeza, acima da curiosidade.
A legenda que veio com a imagem, da agência France Press (o nome do fotógrafo, aliás, é A. Majeed) começava dizendo "Dead child...". Eu não queria ter lido isso. Nunca desejei tanto que uma informação estivesse errada, e que essa criança estivesse, de alguma forma, viva.
Eu sei que há muitas crianças que morrem por aí, de formas até piores, e vocês podem dizer que eu não reajo com elas assim como reagi com o menino paquistanês. Pois é. Culpem essa foto, feita em algum momento do final da tarde do dia 21 de outubro de 2009 na cidade de Peshawar, no Paquistão.
Dizem que o jornalismo tem o poder de mudar o mundo. Nem que seja um pouquinho, essa foto mudou o meu.
16 de outubro de 2009
Everyday is exactly the same
Hoje é um daqueles dias. Me dá vontade de abraçar o mundo. E de não dizer esses clichês idiotas pra expressar como me sinto.
Sei que isso tem um nome: ansiedade. Mas isso pouco importa. Dar nome às coisas não resolve nada. Tenho vontade de começar a escrever um livro. O meu livro. Um não, vários. Tenho vontade de sair correndo (não no sentido de fugir, nada disso, para me exercitar mesmo). Tenho vontade de ir atrás de vídeos legais no YouTube - e vou, mas, passados poucos segundos de cada um deles, abro outros (os relacionados) e quando vejo há uma porção de abas, muitos links abertos, nenhum fechado. Tudo incompleto.
Hoje é mais um daqueles dias. Eles se repetem bastante, ultimamente. Sinto falta de tanta coisa. Sinto que estou perdendo tempo, que o estou desperdiçando, que não estou sabendo viver. Não é uma sensação muito boa. Não, não tem nada a ver com o casamento - ele até que me ajuda pra caramba. É algo além disso, que corre em paralelo, e que parece ter estado sempre ali, escondido nos últimos anos (quando eu estava bastante ocupado com outras coisas), e que voltou com força total agora com a calmaria. Mente vazia, oficina do diabo.
Fico pensando que, se conseguisse canalizar toda essa energia em um talento, uma única ação, ou transformá-la em felicidade, estaria tudo resolvido. Tudo resolvido.
Droga.
Sei que isso tem um nome: ansiedade. Mas isso pouco importa. Dar nome às coisas não resolve nada. Tenho vontade de começar a escrever um livro. O meu livro. Um não, vários. Tenho vontade de sair correndo (não no sentido de fugir, nada disso, para me exercitar mesmo). Tenho vontade de ir atrás de vídeos legais no YouTube - e vou, mas, passados poucos segundos de cada um deles, abro outros (os relacionados) e quando vejo há uma porção de abas, muitos links abertos, nenhum fechado. Tudo incompleto.
Hoje é mais um daqueles dias. Eles se repetem bastante, ultimamente. Sinto falta de tanta coisa. Sinto que estou perdendo tempo, que o estou desperdiçando, que não estou sabendo viver. Não é uma sensação muito boa. Não, não tem nada a ver com o casamento - ele até que me ajuda pra caramba. É algo além disso, que corre em paralelo, e que parece ter estado sempre ali, escondido nos últimos anos (quando eu estava bastante ocupado com outras coisas), e que voltou com força total agora com a calmaria. Mente vazia, oficina do diabo.
Fico pensando que, se conseguisse canalizar toda essa energia em um talento, uma única ação, ou transformá-la em felicidade, estaria tudo resolvido. Tudo resolvido.
Droga.
22 de julho de 2009
O choro de Cristian
Até ontem, eu havia chorado apenas duas vezes com o futebol.
A primeira foi foi na Copa do Mundo de 1994, um torneio que eu me gabo de ter acompanhado integralmente. A final foi muito tensa, e quando o Brasil venceu eu subi para o terraço da minha casa e as lágrimas saíram como um impulso. O choro foi um alívio.
A segunda ocasião foi quando o Corinthians ganhou a Copa do Brasil de 1995, contra o Grêmio. O time gaúcho era muito badalado e quase ninguém acreditava que o Corinthians pudesse vencer (pelo menos era dessa forma que eu via a situação naquela época). A vitória (com um gol de Marcelinho Carioca no Olímpico), portanto, para mim, foi algo redentor; a sobreposição do mais fraco, do batalhador, contra o mais forte, o estabelecido. O choro foi um desabafo.
Até ontem.
Porque, ontem, André Santos e Cristian deram adeus ao Corinthians. "Oh, meu Deus, e daí, Luís? Não é o fim do mundo", dirão os incautos. De fato. Mas é uma pequena catástrofe para o atual contexto corintiano. Este time vem jogando junto desde o início de 2008, e todo torcedor corintiano que se preze acompanhou sua evolução, desde a humilhação pela passagem na Série B e a redenção (olha ela aí de novo) com as conquistas do Paulistão e Copa do Brasil 2009. Não há como não sentir a perda de jogadores tão importantes para a equipe.
No caso do André Santos a situação não é, digamos, tão grave. Ele mesmo e a diretoria já vinham falando de sua transferência há um bom tempo. E ele era bem mais "mala" em campo: adorava uma firula, era displiscente, perdia o foco com facilidade. O que, ao menos para mim, quase anula a importância dos 25 gols (alguns importantíssimos) que marcou em sua passagem pelo time.
Com o Cristian é diferente. O cara chegou desacreditado do Flamengo (foi dispensado pelo técnico Caio Júnior - quem?), demorou para se firmar como titular (eu mesmo, no começo, achava que o Fabinho não deveria dar lugar a ele nem aqui nem na China), mas de repente lá estava ele, sendo indispensável. Roubando bolas, fazendo coberturas, ligando contra-ataques, sendo preciso, dando passes e assistências. Foi constantemente acusado pelos adversários de ser agressivo demais, mas isso é conversa mole - ele de fato era, mas o soube ser na medida certa. E ainda bem que o Corinthians teve alguém como ele para cumprir esse papel (me lembro bem do jogo contra o Santos pela primeira fase do Paulistão, quando se gerou uma expectativa enorme para a estreia no Neymar e o Cristian foi lá e deu um belo tapa na orelha no moleque, que não fez nada durante o jogo todo - o Corinthians ganhou por 1 a 0).
Me emocionar com as imagens de Cristian se despedindo de seus colegas na sala de musculação ou não conseguindo segurar as lágrimas durante sua entrevista talvez fosse algo que eu não esperava (e certamente mostra um nível de fanatismo jamais obtido por mim pelo Corinthians - mas o time está em boa fase, então isso não é preocupante). É realmente surpreendente ver, nos dias de hoje, esse tipo de reação de um jogador que vai para a Europa (principalmente porque não há como desconfiar minimamente de qualquer tipo de "cena" por parte de Cristian), e me enche de orgulho o fato disso ter acontecido no Corinthians. Um choro de gratidão.
Até ontem, eu tinha três grandes ídolos no Corinthians: Ronaldo (o goleiro), Neto e Marcelinho Carioca.
Até ontem.
A primeira foi foi na Copa do Mundo de 1994, um torneio que eu me gabo de ter acompanhado integralmente. A final foi muito tensa, e quando o Brasil venceu eu subi para o terraço da minha casa e as lágrimas saíram como um impulso. O choro foi um alívio.
A segunda ocasião foi quando o Corinthians ganhou a Copa do Brasil de 1995, contra o Grêmio. O time gaúcho era muito badalado e quase ninguém acreditava que o Corinthians pudesse vencer (pelo menos era dessa forma que eu via a situação naquela época). A vitória (com um gol de Marcelinho Carioca no Olímpico), portanto, para mim, foi algo redentor; a sobreposição do mais fraco, do batalhador, contra o mais forte, o estabelecido. O choro foi um desabafo.
Até ontem.
Porque, ontem, André Santos e Cristian deram adeus ao Corinthians. "Oh, meu Deus, e daí, Luís? Não é o fim do mundo", dirão os incautos. De fato. Mas é uma pequena catástrofe para o atual contexto corintiano. Este time vem jogando junto desde o início de 2008, e todo torcedor corintiano que se preze acompanhou sua evolução, desde a humilhação pela passagem na Série B e a redenção (olha ela aí de novo) com as conquistas do Paulistão e Copa do Brasil 2009. Não há como não sentir a perda de jogadores tão importantes para a equipe.
No caso do André Santos a situação não é, digamos, tão grave. Ele mesmo e a diretoria já vinham falando de sua transferência há um bom tempo. E ele era bem mais "mala" em campo: adorava uma firula, era displiscente, perdia o foco com facilidade. O que, ao menos para mim, quase anula a importância dos 25 gols (alguns importantíssimos) que marcou em sua passagem pelo time.
Com o Cristian é diferente. O cara chegou desacreditado do Flamengo (foi dispensado pelo técnico Caio Júnior - quem?), demorou para se firmar como titular (eu mesmo, no começo, achava que o Fabinho não deveria dar lugar a ele nem aqui nem na China), mas de repente lá estava ele, sendo indispensável. Roubando bolas, fazendo coberturas, ligando contra-ataques, sendo preciso, dando passes e assistências. Foi constantemente acusado pelos adversários de ser agressivo demais, mas isso é conversa mole - ele de fato era, mas o soube ser na medida certa. E ainda bem que o Corinthians teve alguém como ele para cumprir esse papel (me lembro bem do jogo contra o Santos pela primeira fase do Paulistão, quando se gerou uma expectativa enorme para a estreia no Neymar e o Cristian foi lá e deu um belo tapa na orelha no moleque, que não fez nada durante o jogo todo - o Corinthians ganhou por 1 a 0).
Até ontem, eu tinha três grandes ídolos no Corinthians: Ronaldo (o goleiro), Neto e Marcelinho Carioca.
Até ontem.
17 de abril de 2009
17 de março de 2007
De volta para o futuro
Tomei um susto hoje a hora que liguei a TV. Percebi que a maioria - quase todos - os canais da minha TV a cabo estavam desativados. Aí lembrei da moça que me vendeu o pacote ter disto alguma coisa sobre algum prazo de três meses para alguns canais. Mas, sinceramente, não sabia que seriam tantos.
Digo que levei o susto porque há duas semanas esperava por este sábado na TV. Às 18h, o telecine cult ia passar a maratona "De Volta Para o Futuro", os três filmes numa pancada só. A cerveja e aperitivos já estavam garantidos, era um evento que não poderia perder. Por isso estava tão apreensivo enquanto apertava o botão de canal rumo à casa dos 60. Felizmente - e eu realmente agradeci aos céus por isso - toda a rede telecine continuava lá.
Às 18h, lá estava eu, a postos. Agora são 0h12, e o terceiro filme acabou faz uns 15 minutos. Acho que foi a primeira vez que eu vi a a série pra valer, com toda minha atenção voltada aos detalhes de cada filme. Continuo achando a trilogia fantasticamente absurda de boa, mas pude notar uma série de probleminhas - nada que para mim, repito, comprometa a qualidade e capacidade de entretenimento da obra.
Primeiro, o roteiro desrespeita largamente o princípio "Corra Lola Corra", da teoria do Caos, aquela que diz que cada pequeno passo que damos gera uma influência em todo o universo. Tudo está conectado, e nossas ações têm conseqüências. Uma volta no tempo por si só seria algo que alteraria tudo de forma gigantesca, mesmo que não fizéssemos absolutamente NADA no passado.
Também há várias pequenas alterações no argumento para que o roteiro maluco possa de cumprir. Por exemplo, no segundo filme, o que tem a ver o Doc levar o McFly pro futuro só pra resolver o problema com o filho dele? Ele mesmo não poderia ter resolvido tudo sozinho? Não, ele precisava criar toda uma situação para o Biff voltar para o passado e entregar o Almanaque de esportes para ele mesmo - e, é claro, no mesmo dia em que o raio cai e toda a merda no primeiro filme acontece.
Também dá para notar uma diferença grande entre os três filmes - o segundo é o melhor, eu já achava isso e hoje pude confirmar minha opinião. O terceiro é mais "pop", com o roteiro mais meloso e umas frases mais de efeito, parece ter sido feito exclusivamente para atrair público mesmo. E tem um fim bem forçadinho, não tinha nada a ver a namorada do Marty pegar o fax onde estava escrito "Você está despedido" e perguntar ao Doc por quê aquilo tinha acontecido. Será que ela era tão burra de não imaginar? Mas é claro, o Doc precisava de uma deixar para soltar que o futuro está em branco, e é feito por cada um de nós.
Não dava para cobrar nada diferente de um filme do Spielberg feito para as massas mesmo. E, embora eu esteja falando mal, vou comprar os filmes em DVD para meus filhos poderem assistí-los um dia desses. No futuro, claro.
Digo que levei o susto porque há duas semanas esperava por este sábado na TV. Às 18h, o telecine cult ia passar a maratona "De Volta Para o Futuro", os três filmes numa pancada só. A cerveja e aperitivos já estavam garantidos, era um evento que não poderia perder. Por isso estava tão apreensivo enquanto apertava o botão de canal rumo à casa dos 60. Felizmente - e eu realmente agradeci aos céus por isso - toda a rede telecine continuava lá.
Às 18h, lá estava eu, a postos. Agora são 0h12, e o terceiro filme acabou faz uns 15 minutos. Acho que foi a primeira vez que eu vi a a série pra valer, com toda minha atenção voltada aos detalhes de cada filme. Continuo achando a trilogia fantasticamente absurda de boa, mas pude notar uma série de probleminhas - nada que para mim, repito, comprometa a qualidade e capacidade de entretenimento da obra.
Primeiro, o roteiro desrespeita largamente o princípio "Corra Lola Corra", da teoria do Caos, aquela que diz que cada pequeno passo que damos gera uma influência em todo o universo. Tudo está conectado, e nossas ações têm conseqüências. Uma volta no tempo por si só seria algo que alteraria tudo de forma gigantesca, mesmo que não fizéssemos absolutamente NADA no passado.
Também há várias pequenas alterações no argumento para que o roteiro maluco possa de cumprir. Por exemplo, no segundo filme, o que tem a ver o Doc levar o McFly pro futuro só pra resolver o problema com o filho dele? Ele mesmo não poderia ter resolvido tudo sozinho? Não, ele precisava criar toda uma situação para o Biff voltar para o passado e entregar o Almanaque de esportes para ele mesmo - e, é claro, no mesmo dia em que o raio cai e toda a merda no primeiro filme acontece.
Também dá para notar uma diferença grande entre os três filmes - o segundo é o melhor, eu já achava isso e hoje pude confirmar minha opinião. O terceiro é mais "pop", com o roteiro mais meloso e umas frases mais de efeito, parece ter sido feito exclusivamente para atrair público mesmo. E tem um fim bem forçadinho, não tinha nada a ver a namorada do Marty pegar o fax onde estava escrito "Você está despedido" e perguntar ao Doc por quê aquilo tinha acontecido. Será que ela era tão burra de não imaginar? Mas é claro, o Doc precisava de uma deixar para soltar que o futuro está em branco, e é feito por cada um de nós.
Não dava para cobrar nada diferente de um filme do Spielberg feito para as massas mesmo. E, embora eu esteja falando mal, vou comprar os filmes em DVD para meus filhos poderem assistí-los um dia desses. No futuro, claro.
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